LAÇOS: o contador de histórias, o poeta e os psicanalistas pioneiros

Roberto Bittencourt Martins
Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ)


Érico Veríssimo dizia ser “apenas um contador de histórias”. E Mário Quintana apontava: “ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras”. Sobre a amizade, observava: “Amigo é a criatura que escuta todas as nossas coisas sem aquela cara que parece estar dizendo: E eu com isso?” Ambos mantiveram laços cordiais de amizade. Érico pediu a ele uma quadra para complementar a epígrafe do romance O Resto é Silêncio. Anos depois, Quintana escreveu uma Carta-Poema de saudação ao romancista que começa: “O nosso modo de ser que é tão nosso e por isso tão humano…”. 

Ao saber que os dois escritores seriam homenageados no 28º Congresso Brasileiro da Febrapsi, lembrei-me dos laços que os uniam aos psicanalistas pioneiros em terras gaúchas. Entre os papéis de meu pai, Mário Martins, guardávamos um cartão de Érico com bem-humoradas e ilustradas saudações por seu aniversário de 50 anos em 1958 – o qual foi comemorado com um almoço em que os psicanalistas festejavam com alegria também os recentes 53 anos do escritor, já obrigado a precaver-se da doença cardíaca. 

Érico costumava receber os amigos em sua casa à noite e analistas como Paulo Guedes, Luís Carlos Meneghini e outros eram convivas frequentes. A literatura estava presente sempre na vida cotidiana daqueles psicanalistas e era fonte de muita satisfação. Meneghini escreveria depois “Freud e a Literatura”, seu primeiro livro. E Paulo Guedes, professor de Psiquiatria e de Música, além de poeta bissexto, como conta Meneghini em À Sombra do Plátano, liderava um grupo de analistas, amigos médicos e jornalistas que se divertiam escrevendo e realizando pequenos atos humorísticos nos veraneios em Gramado. Ali, no teatrinho do Artesanato Gramadense de Elizabeth Rosenfeld (a escultora do Kikito), no palco ou na plateia, participavam músicos, como a pianista Zuleika, esposa de Paulo, tocando peças clássicas e populares, e autores como Carlos Reverbel e Érico. Abro aqui um parêntese pois acredito seja um feliz acaso a realização (mesmo que de modo virtual, por força da pandemia)  deste Congresso em Gramado, lugar em que tantos viveram bons momentos. Como David Zimmermann, Santiago Wagner, Roberto Ribeiro e o casal Mário Martins e Zaira Bittencourt  Martins, num tempo em que a cidade não era ainda um gigantesco polo turístico. 

Os laços de Mário Quintana são anteriores. Vindo de Alegrete para estudar em Porto Alegre, era parte de uma comunidade informal de estudantes oriundos do interior em busca dos cursos universitários de Porto Alegre, únicos no estado. Moravam em “repúblicas” ou pensões. Ali, foi companheiro dos futuros médicos Cyro Martins, Mário Martins, Lino Mello e Silva. Os dois primeiros fundariam mais tarde a primeira Sociedade Psicanalítica do estado e seriam fortes esteios na implantação da psicanálise no Brasil. Lino faria sua vida profissional no Rio de Janeiro, qualificando-se na primeira turma da SBPRJ. Quintana dedicaria a Lino um de seus mais notáveis sonetos: “A ciranda rodava no meio do mundo…” 

O amor à literatura unia também os jovens estudantes, que seguiram com entusiasmo os reflexos literários da Semana de Arte Moderna. Mário fez versos, Lino escreveu contos – e Cyro uniu de maneira magistral o ofício de psicanalista com o de escritor, publicando 15 obras de ficção (contos, novelas, romances) desde Campo Afora (1934) até Um Sorriso para o Destino (1991) e outro tanto de ensaios, destacando o Humanismo Psicanalítico. Esses laços entre psicanálise e literatura foram prosseguidos por sua filha Maria Helena Martins, criadora do Centro de Estudos Literários e Psicanalíticos Cyro Martins, com realizações que vêm unindo escritores e psicanalistas ao longo desses anos. 

Para terminar, dando voz aos dois escritores homenageados, algumas frases que poderiam repetir se estivessem presentes em nosso Congresso. 

Quintana: – Sonhar é acordar-se para dentro …. A psicanálise? Uma das mais fascinantes modalidades do gênero policial, em que o detetive procura desvendar um crime que o próprio criminoso ignora.

Érico: – Odeio todas as formas de ditadura, inclusive as chamadas benignas ou paternalistas. Detesto qualquer forma de coação. A causa daqueles que lutam pela liberdade será sempre a minha causa. Não aceito como são e válido nenhum regime político e econômico que não tenha como base o respeito à pessoa humana.

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