Tesouros do Quintana

No último mês de janeiro, o jornal Zero Hora publicou uma matéria da jornalista Juliana Bublitz que conta da descoberta de uma poesia inédita de Mário Quintana. Dentro de um livro do próprio poeta, eis que surge uma folha de papel, amarelada pelo tempo, que carrega versos rabiscados de um pequeno tesouro: Canção do Primeiro Ano é o título escolhido pelo nosso poeta. Agora esse tesouro pertence à Associação de Amigos da Biblioteca Pública do Estado. 

Canção Do Primeiro Ano

Pelas estradas antigas

As horas vêm a cantar.

As horas são raparigas,

Entram na praça a dançar.

As horas são raparigas

E a doce algazarra sua

De rua em rua se ouvia.

De casa em casa, na rua,

Uma janela se abria.

As horas são raparigas

Lindas de ouvir e de olhar.

As horas cantam cantigas

E eu vivo só de momentos,

Sou como as nuvens do céu

Prendi a rosa dos ventos

Na fita do meu chapéu.

Uma por uma, as janelas

Se abriram de par em par.

As horas são raparigas

Passam na rua a dançar.

As horas são raparigas

Lindas de ouvir e de olhar.

As horas cantam cantigas

E eu vivo só de momentos,

Sou como as nuvens do céu

Prendi a rosa dos ventos

Na fita do meu chapéu.

Uma por uma, as janelas

Se abriram de par em par

                                        Mário Quintana

Mas um tesouro puxa outro… Depois que essa matéria foi publicada, Dona Marietinha, que foi funcionária da Livraria do Globo, entrou em contato com a jornalista e contou que também tinha um poema de Quintana, escrito especialmente para ela. Este nunca fora publicado e estava guardado no seu livro de recordações. Quintana diz assim: 

 “Abaixo, transcrevo os versos ternos redigidos à mão, sem ter certeza se vieram, algum dia, a ser publicados em livro:

Foram-se abrindo aos poucos as estrelas…

De margaridas, lindo campo em flor!…

Tão alto o céu!… Pudesse eu ir colhê-las…

Diria alguma se me tens amor…

Estrelas altas! Que se importam elas?

Tão longe estão!… Tão longe deste mundo…

Trêmulo bando de distantes velas

Ancoradas no azul do céu profundo…

Porém meu coração quase parou,

Já foram voando as esperanças minhas,

Quando uma, dentre aquelas estrelinhas,

Tão alto o céu!…Pudesse eu ir colhê-las…

Diria alguma se tens amor…

Estrelas altas! Que se importam elas?

Tão longe estão!…Tão longe deste mundo…

Trêmulo bando de distantes velas

Ancoradas no azul do céu profundo…

Porém meu coração quase parou,

Já foram voando as esperanças minhas, 

Quando uma, dentre aquelas estrelinhas, 

Deus a guie! Do céu se despencou…

Com certeza era o amor que tu me tinhas

Que repentinamente se acabou!”

                                                Mário Quintana 

Pelo visto a caixinha de memórias não parou mais de abrir. Novos tesouros estão sendo descobertos, e Juliana passou a fazer valiosas pontes entre os privilegiados ganhadores dessas relíquias e nós. É realmente salutar tornar públicos estes novos tesouros. Depois da Dona Marietinha, foi a vez da herdeira da Dona Amelia Vallandro. Sua tia vó que trabalhou como revisora da Editora Globo, também tinha um caderno de recordações, contendo um presente do Mário Quintana:  

            Estrelas

            Nas campas, juntas refulgem, 

            Conforme o mundo as traduz:

            Quando se nasce, uma estrela,

             Quando se morre, uma cruz.

            Mas quantos, que lá repousam,

            Hão de emendar-nos, assim:

            Ponham-me a cruz no princípio…

            E a luz da estrela no fim!

                           Mário Quintana

                           Como lembrança para Amélia Vallandro

                           P.A. 6/04/6

E assim tem acontecido… entre esses e outros poemas parece que Mário Quintana não poupou em dividir suas riquezas. Até hoje segue generosamente nos emprestando sua sábia “lente de ver mundo”, cujo zoom amplia a imagem das coisas simples e belas da vida.

Aline Grill Gomes
Membro do Comitê Cultural Local do 28º Congresso Brasileiro de Psicanálise – Febrapsi 

Regina Pereira Klarmann
Coordenadora do Comitê Local do 28º Congresso brasileiro de Psicanálise – Febrapsi

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